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Helena Sacadura Cabral

Helena Sacadura Cabral

UMA ESTADIA NO VALE DO GAIO

Meu querido Vasco,
Queremos agradecer-te, de coração cheio, a forma tão especial como nos recebeste no teu hotel. Mais do que uma estadia, foi um verdadeiro abraço — feito de atenção, de carinho, de muita gargalhada, e daquela hospitalidade rara que só nasce quando há amizade verdadeira.

Em cada detalhe sentiu-se o cuidado, em cada gesto a generosidade, e em cada conversa a alegria simples de estarmos juntos. Tudo isto envolto num Alentejo muito especial, sereno e autêntico, que parece ganhar outra alma quando vivido assim, entre amigos.

Levamos connosco memórias bonitas, o conforto de nos termos sentido em casa e a certeza de que esta amizade continua a crescer, tal como o encanto desse lugar que tão bem sabes cuidar, com aquele toque de qualidade que é o teu. Obrigado por tudo.

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publicado às 23:05

AS PONTES

Esta lindíssima escultura chamada "Tendiendo Puentes" (construindo pontes) do artista Lorenzo Quinn, foi apresentada na Bienal de Veneza em 2019. É composta por seis pares de mãos e braços gigantes entrelaçados, que têm um significado especial, que vale a pena relembrar, quando olhamos para ela.

A escultura simboliza a necessidade de união e a importância de superar divisões em tempos conturbados. Deste modo, elas formam uma ponte sobre um canal, no distrito de Castelli, em Veneza. As mãos simbolizam a necessidade de haver elos sólidos para superar diferenças e dificuldades.

Cada par de mãos representa um dos seis valores humanos do Universo, essenciais para construir pontes:  AMIZADE, SABEDORIA, SOLIDARIEDADE, FE, ESPERANÇA e AMOR. Aliás os valores que nos permitem, hoje, mais do que nunca, aspirar todos por um mundo melhor. Que elas continuem em 2026 a permitir que possamos dizer e sentir Feliz Ano Novo!

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publicado às 16:06

A ÚLTIMA BADALADA

A passagem do ano é um instante suspenso no tempo. Não é apenas a mudança de um número no calendário; é um ritual íntimo, quase secreto, que cada pessoa vive à sua maneira. Há sempre uma certa expectativa, como se o futuro estivesse ali, a poucos segundos, pronto para ser tocado. É a sensação de que algo pode mudar — mesmo que nada mude de imediato.

Mistura‑se também uma nostalgia suave, aquela vontade de olhar para trás e revisitar o que fomos. Recordamos vitórias, tropeços, pessoas que chegaram, outras que partiram. É um inventário emocional que fazemos sem perceber, como quem arruma uma gaveta, antes de a fechar.

Ao mesmo tempo, nasce uma esperança teimosa. Mesmo quem não acredita em superstições, sente que a meia‑noite abre uma porta invisível. É o desejo de recomeçar, de fazer melhor, de deixar para trás o que pesou. É a promessa silenciosa que fazemos a nós próprios.

Mas há também uma certa melancolia, porque todo fim carrega um pequeno luto. O ano que passou não volta, e isso tem um peso. É um adeus discreto, mas sentido.

E, claro, existe a alegria — às vezes ruidosa, às vezes tranquila. A alegria de estar vivo, de estar com quem importa, de ter chegado até aqui. A alegria de contar em voz alta os últimos segundos e sentir o coração acelerar, como se fosse a primeira vez.

No fundo, a passagem do ano é um mosaico de emoções contraditórias: esperança e saudade, entusiasmo e medo, alegria e silêncio. É isso que a torna tão humana. É isso que a torna, também, tão pessoal.

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publicado às 16:44

NATAL EM TEMPO DE GUERRA

O Natal, tradicionalmente marcado pela esperança, pela união e pelo nascimento da paz, adquire um significado profundo e doloroso quando vivido em tempo de guerra. Enquanto em muitos lares o brilho das luzes e o calor das reuniões familiares anunciam celebração, em outros o som que ecoa é o das explosões, das sirenes e do choro silencioso de quem perdeu tudo.

Em cenários de conflito, o Natal deixa de ser apenas uma data no calendário e transforma-se  num ato de resistência. Celebrar, ainda que de forma simples, é afirmar a humanidade diante da destruição. Um pedaço de pão dividido, uma vela acesa, uma oração sussurrada ou um abraço apertado tornam-se símbolos poderosos de fé e sobrevivência. Onde a guerra tenta apagar sonhos, o Natal insiste em reacendê-los.

As crianças, que deveriam associar essa época a presentes e alegria, aprendem cedo demais o significado do medo e da ausência. Muitas esperam não por brinquedos, mas por notícias de pais que não retornaram, por um dia sem bombardeios, por uma noite de sono tranquila. Ainda assim, os seus olhares carregam uma esperança teimosa, como se acreditassem que a paz pode nascer mesmo no meio dos escombros.

O Natal em tempo de guerra também convida à reflexão daqueles que estão longe do conflito. Ele lembra que a mensagem de amor ao próximo não pode ser seletiva, nem limitada por fronteiras. A solidariedade, a empatia e o compromisso com a vida tornam-se presentes urgentes e necessários.

Assim, mesmo cercado pela dor, o Natal continua sendo uma chamada à paz. Um sinal de que, apesar da guerra, a humanidade ainda pode escolher a compaixão. Porque enquanto houver alguém disposto a amar, a partilhar e a esperar, o verdadeiro espírito do Natal não estará perdido — estará apenas lutando para sobreviver.

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publicado às 21:18

PESSOAS: MARIA SERUYA A MULHER DE MIL SUPERFICIES

Maria Seruya não cabe em rótulos. É daquelas presenças que, ao entrar numa sala, parecem expandir o ar, como se cada gesto contasse várias histórias ao mesmo tempo. Multifacetada — palavra que nela deixa de ser metáfora e se torna um modo de existir — Maria caminha por diferentes mundos, com a mesma naturalidade com que outros mudam de roupa.

Artista por intuição, pensadora por inquietação e criadora por necessidade vital, ela constrói pontes entre universos que, para muitos, jamais se tocariam. Num dia fala com a precisão de quem decanta ideias; no outro, cria imagens que parecem brotar diretamente do subconsciente. Maria tem o dom raro de transformar fragmentos em sentido, caos em ritmo, silêncio em linguagem.

Os seus projetos — sejam eles artísticos, humanos ou simplesmente quotidianos — sopram a mesma marca: a autenticidade. Nada em Maria é superficial. Cada escolha reflete uma camada dela, e há sempre outra por baixo, vibrando, chamando, pedindo para ser descoberta. Talvez seja por isso que tantos se sentem atraídos pela sua presença: ela é um convite permanente à curiosidade.

Mas o que realmente torna Maria Seruya multifacetada, não é a quantidade de coisas que faz, e sim a profundidade com que habita cada uma. Ela sabe ser plural sem perder o centro; sabe ser vasta sem se dispersar. Uma mulher que reflete muitas luzes — e, ainda assim, guarda o mistério de algumas sombras.

Maria Seruya, na sua multiplicidade, lembra ao mundo que ninguém precisa ser apenas uma coisa. Que a vida, quando vivida com coragem, pode ser um mosaico — e que a beleza está exatamente nisso.

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publicado às 15:49

AS MALVADAS CONTAS

“O primeiro-ministro, que uns dias antes tinha sugerido aproveitar a oportunidade da possível mudança das leis laborais para elevar o salário mínimo para os 1.500 euros e o médio para 2.000 ou 2.500, disse não querer "que o salário médio chegue aos 1.600 ou 1.700", mas sim que "chegue aos 2.500, 2.800 ou 3.000 euros".

Não costumo falar de política, mas esta frase do primeiro-ministro, retirada das notícias que respeitam a economia do país, levantou-me algumas dúvidas, e por isso, obrigou-me a faze umas contas de matemática básica, em que apenas entrei com números que são do domínio público.

De acordo com elas, a afirmação parece-me, sobretudo, retórica e aspiracional. O primeiro-ministro projeta salários médios muito elevados (2.500–3.000 euros) para mostrar ambição política e distanciar-se de metas mais modestas. No entanto, do ponto de vista económico, esses valores parecem pouco realistas a curto prazo, sem um forte aumento da produtividade e reformas estruturais. Falta também clareza, sobre como esses objetivos seriam alcançados, o que reforça o carácter mais discursivo do que prático, da declaração. Isto de acordo com as minhas contas, claro!

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publicado às 00:02

GLENN MILLER ORCHESTRA

Fui ontem ao CCB - Centro Cultural de Belém-, ouvir a icónica Glenn Miller Orchestra, sob a direção do maestro Ray McVay , que retornou a Portugal para um concerto especial. Foi no fim da tarde de ontem, em que dirigiu os 20 talentosos músicos e cantores desta magnifica orquestra, num espetáculo que, como num estalar de dedos, nos faz recuar até aos anos 1930. Ainda consegui emocionar-me, tantas décadas depois, porque se trata de um dos compositores de quem mais gosto.

O prazer de ouvir a música de Glenn Miller está na forma como ela envolve o ouvinte com leveza, elegância e um sentimento de alegria serena. As suas peças marcadas pelo som inconfundível dos metais e pelo ritmo suave do swing, criam uma atmosfera acolhedora, capaz de transportar a mente para outra época. Ao ouvir as suas composições, é fácil imaginar salões de dança iluminados, pessoas sorrindo e momentos de descontração que parecem suspensos no tempo.

 A música de Glenn Miller não é apenas entretenimento. É uma experiência que desperta nostalgia, tranquilidade e prazer, mostrando como a arte pode atravessar gerações e continuar a tocar o coração de quem a escuta.

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publicado às 17:07

O PAI DA CLARA

Não, não venho falar de Clara Pinto Correia. Já muitos, antes de mim, o fizeram e com mais conhecimento de causa do que eu, que pouco a conheci. Venho falar de um homem que era meu amigo, salvou a minha vida e era pai da Clara. Venho falar do Professor José Pinto Correia, consensualmente aclamado como um dos maiores vultos da Gastroenterologia nacional e internacional, e que deixou pegadas demasiado marcadas para que o tempo o consiga apagar. Foi das melhores mais brilhantes pessoas que conheci. E que, enquanto viveu foi o médico que sempre me acompanhou.

Conhecemo-nos numa reunião da então JUC – Juventude Universitária Católica- e a partir daí, foram várias as razões que nos juntaram, para além da saúde. Havia um lado de humor e até de diversão nele, que só os mais próximos sabiam.

Conheci, assim, os pais muito antes das filhas. Mas a existência delas, sentia-se nos pais que conheci. Havia neles um amor repartido, treinado na partilha, um cuidado que sabia multiplicar-se sem perder profundidade. Não falavam de uma filha só, mas de um pequeno mundo construído a várias vozes.

Nos gestos, via-se a experiência de quem criou mais do que uma vida: a paciência, a atenção ao detalhe, a capacidade de ouvir. Clara vinha desse espaço cheio, onde ninguém cresce sozinho, onde se aprende cedo a existir com o outro ao lado.

Ao conhecer os pais, percebi que Clara — e as irmãs — eram fruto desse equilíbrio discreto: um amor firme, silencioso, que não distingue para diminuir, mas que sustenta todas por igual.

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publicado às 20:00

O RECONHECIMENTO PÓSTUMO

Há vidas que passam silenciosas diante do mundo, mas intensas dentro de si. Pessoas que constroem, criam, inovam, servem, inspiram – e, mesmo assim, caminham à margem do aplauso. Só depois que se vai a presença, é que desperta a ausência. E com ela, surge aquele reconhecimento tardio, quase sempre acompanhado de um arrependimento coletivo: “Como não vimos antes?”

O reconhecimento póstumo revela, acima de tudo, a dificuldade humana de valorizar o que está perto, o que é quotidiano, o que não se impõe. É mais fácil admirar à distância do que contemplar quem está diante de nós. Talvez porque, no dia a dia, confundimos simplicidade com falta de grandeza, e humildade com falta de valor.

No entanto, quando alguém parte, a memória ilumina o que os olhos não enxergaram a tempo. Pequenos gestos ganham profundidade; contribuições antes discretas revelam-se essenciais; talentos ignorados tornam-se, de repente, irrefutáveis. A ausência escancara o tamanho da presença, que antes foi tratada como comum.

Mas o reconhecimento póstumo também serve como espelho. Nele refletimos nossa tendência a adiar elogios, silenciar gratidões e deixar para depois, a celebração de quem faz diferença. A partida transforma esse “depois” em nunca mais.

Por isso, lembrar que muitos só foram reconhecidos depois de partir, é um convite à urgência. A de valorizar hoje. quem merece ser visto. Celebrar em vida, o que tantas vezes, só se exalta na memória. Porque todos carregam dentro de si uma história digna de ser reconhecida — e é injusto permitir que o mundo só a descubra quando não houver mais tempo.

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publicado às 14:16

ELOS QUE NÃO SE EXPLICAM

Há vínculos que desafiam a lógica com a mesma naturalidade com que a gravidade mantém os corpos próximos, sem que precisemos compreender o fenómeno. São laços que emergem antes do pensamento, como se encontrassem o seu fundamento em algo mais antigo do que as palavras — talvez na própria estrutura da experiência humana.

A filosofia tenta, muitas vezes, reduzir o mundo ao que pode ser dito. Mas há relações que pertencem ao domínio do indizível, aquilo que Wittgenstein chamaria de “o que se mostra”. Não são explicáveis, apenas reconhecíveis. Revelam-se em gestos mínimos como a familiaridade imediata, o conforto espontâneo, o sentido de continuidade sem história prévia.

Estes laços insinuam que o encontro entre duas consciências, não é apenas um cruzamento acidental, mas a atualização de possibilidades invisíveis, que existiam antes. Como se cada pessoa carregasse potenciais de afinidade, que só despertam diante de certas presenças - e não de outras - sem qualquer aparente explicação causal.

Aristóteles diria que há amizades que nascem da virtude ou da utilidade. Mas, talvez exista um tipo de afinidade, que antecede ambas, um modo de reconhecimento, que depende de uma espécie de harmonia ontológica. Dois modos de ser que, por razões insondáveis, vibram na mesma frequência.

O mistério desses laços lembra-nos que a vida não pode ser totalmente contida no racional. Há dimensões que a linguagem não captura e que, no entanto, orientam profundamente o nosso caminho. Talvez a função desses vínculos seja, justamente, ensinar-nos humildade diante do inexplicável, aceitar que nem tudo o que nos toca pode ser dissecado, e que parte da beleza da existência, reside justamente em convivermos com aquilo que apenas se sente e não se resolve, não se define.

Em última análise, os laços que não se explicam são um testemunho silencioso de que o humano ultrapassa o humano. São fissuras por onde o mistério escorre, lembrando-nos de que a vida acontece também no que escapa, no que surpreende, no que não cabe em nenhum porquê.

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publicado às 20:27

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