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Helena Sacadura Cabral

Helena Sacadura Cabral

A BELEZA QUE NÃO SE VÊ

Quando sentimos que a nossa beleza não se vê, é como se estivéssemos escondidos atrás de uma cortina, que só deixa passar uma sombra de quem realmente somos. Olhamo-nos no espelho à procura sinais, mas parece que o reflexo não devolve aquilo que carregamos por dentro. É uma sensação silenciosa, quase injusta, de estar invisível ao mundo e às vezes, até, a nós mesmos.

Mas existe uma verdade difícil e bela nisto. É que nem toda beleza foi feita para ser vista de imediato. Algumas só se revelam no jeito de ouvir alguém sem pressa, na coragem de recomeçar quando tudo pesa, no brilho discreto dos olhos quando falamos do que amamos. Essa beleza, ainda que não se mostre em vitrines nem a olhares rápidos, é a que transforma, de verdade, quem cruza o nosso caminho.

Talvez o mais doloroso seja acreditar que ela não existe, só porque não é reconhecida. Mas a beleza que não se vê, continua sendo beleza — e, quando alguém a enxerga, mesmo que seja uma única pessoa, ela ganha o valor de um universo inteiro.

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publicado às 23:32

NO INTERLÚDIO DO CORPO

No interlúdio do corpo, quando a pressa já não dita o compasso, aprendemos a ouvir.
O envelhecer não chega como rutura brusca, mas como um diálogo paciente - um murmúrio entre ossos, músculos e lembranças.

A pele torna-se mapa de caminhos percorridos.
Cada linha, um registo, cada marca, uma história que já não precisa ser contada em voz alta.
Os joelhos lembram que já correram mais depressa, os olhos, que já buscaram longe, antes de aprender a repousar no perto.

Nesse intervalo, descobrimos que o corpo não nos abandona, apenas nos convida a outro ritmo.
A vitalidade não desaparece. Ela apenas muda de lugar.
Sai da velocidade dos passos, para habitar a profundidade do olhar,
abandona a urgência do gesto, para firmar-se na delicadeza do toque.

O interlúdio do corpo é esse tempo de conciliação,
não negamos o que já não somos,
mas também não desistimos do que ainda podemos ser.
Conversamos com as rugas, aceitamos as pausas, celebramos a respiração.

Porque envelhecer é permanecer em diálogo com a vida,
é encontrar beleza no intervalo,
é reconhecer que, no corpo que abranda,
há ainda a música inteira — apenas em outro tom.

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publicado às 13:46

A extraordinária beleza de dizer “não sei”

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Vivemos num tempo em que a pressão por respostas imediatas e certezas absolutas nos envolve de todos os lados. Espera-se que tenhamos opinião formada sobre tudo, que possamos explicar, argumentar e responder sem hesitação. Mas existe uma beleza rara e poderosa em admitir o contrário: dizer “não sei”.

Esse gesto simples carrega uma honestidade profunda. Reconhecer que não sabemos é um ato de humildade, porque nos coloca diante dos limites do nosso próprio conhecimento. É, também, um ato de coragem, porque desafia a vaidade de parecer sempre seguro e informado.

O “não sei” abre espaço para a curiosidade. Ele convida à busca, à investigação e à aprendizagem contínua. Diferente da falsa certeza, que fecha portas, a dúvida sincera expande horizontes. Quem admite não saber está pronto para descobrir, ouvir e crescer.

Há ainda uma beleza ética nesse gesto: quando dizemos “não sei”, oferecemos ao outro a verdade, em vez de preencher o vazio com respostas precipitadas. Assim, cultivamos relações mais autênticas e transparentes.

No fundo, o “não sei” é um lembrete de que a vida não se resume a controlar tudo ou dominar todo o conhecimento. É a confissão de que somos viajantes num caminho infinito de descobertas. E talvez a maior sabedoria esteja justamente aí: no reconhecimento de que a incerteza é parte essencial de sermos humanos.

publicado às 12:41

AQUILO QUE NÃO DIZEMOS

Aquilo que não dizemos não desaparece. Fica guardado nos cantos mais silenciosos de nós próprios, como uma forma de respiração suspensa. Há palavras que não encontramos coragem de soltar, não porque sejam pequenas, mas justamente porque carregam um peso que nos desnuda.

No silêncio, elas transformam-se em olhares demorados, em pausas longas demais numa frase simples, em gestos que disfarçam a intensidade. Talvez temamos o que possa acontecer se elas forem ditas: a mudança irreversível, o risco de perder o que já existe ou, simplesmente, o medo de não serem recebidas como as sentimos.

Aquilo que não se diz é, ao mesmo tempo, refúgio e prisão. Refúgio, porque nos protege de expor tudo o que sentimos. Prisão, porque nos impede de viver com a leveza de quem nada esconde.

No fundo, sabemos que o não-dito, não é vazio. Ele fala de outra forma. E, talvez um dia, consigamos aprender a deixar que as nossas palavras encontrem o caminho, sem que o coração precise de se esconder atrás do silêncio.

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publicado às 17:59

AS LÁGRIMAS

No sentido simbólico, as lágrimas carregam um valor profundo — não como fraqueza, mas como linguagem secreta da alma.

Elas são palavras que escorrem pelo rosto quando a voz se cala, são memórias líquidas que carregam tanto de dor quanto de ternura. Uma lágrima pode significar saudade, amor, arrependimento, gratidão ou até um alívio depois de uma longa espera.

De certo modo, cada lágrima é uma espécie de oferta silenciosa. Entrega- se ao mundo aquilo que não se conseguiu traduzir em palavras ou gestos. E, ao mesmo tempo, devolve -se a nós próprios um pouco de clareza, como se lavássemos o olhar para que víssemos, de novo, o que importa.

Por isso, valem não pelo que resolvem, mas pelo que revelam, ou seja, pelo que ainda sentimos, que ainda nos importamos, que ainda estamos vivos.

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publicado às 14:15

A ALEGRIA, MOTOR DE VIDA

A alegria não significa ausência de problemas, mas a energia vital que nos motiva a seguir em frente, a criar, a transformar e a ter esperança de encontrar sentido no caminho. É como um combustível interno: quanto mais a cultivamos, mais força temos para viver plenamente.

A alegria é um motor de vida. Ela não elimina as dificuldades, mas dá-nos a energia necessária para as enfrentar com coragem e esperança. É a centelha que ilumina os dias nublados, a força silenciosa que nos levanta, quando tudo parece pesar demais.

Quando cultivamos alegria, não estamos a negar a realidade, mas a escolher olhar para ela com gratidão e abertura. É no gesto simples de sorrir, no abraço sincero, no canto dos pássaros ou no pôr do sol que encontramos combustível para seguir em frente.

A alegria não é um luxo, é uma necessidade vital. Ela nos torna mais resilientes, mais humanos e mais próximos uns dos outros. Viver com alegria é lembrar, todos os dias, que apesar das sombras, há sempre uma chama dentro de nós, capaz de nos mover em direção à vida.

Alimentar a alegria, não é a fugir da realidade —  é, sim, ampliar a nossa capacidade de a enfrentar. É essa energia que transforma a rotina em presença, o cansaço em esperança, e a dor em aprendizagem.

Ela não elimina a dor nem nega o absurdo da existência, mas mostra-nos que, apesar de todas as dificuldades, a vida pode ser digna de ser vivida. A alegria é resistência contra o vazio, é afirmação de que somos mais do que circunstâncias passageiras.

Quando a cultivamos, compreendemos que viver não é esperar a ausência de dificuldades, mas aprender a mover-se com leveza no meio a elas. A alegria, afinal, não é um fim. É a afirmação de que somos mais do que quaisquer circunstâncias passageiras

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publicado às 19:04

A CALÚNIA

Nunca tinha sido alvo da calúnia. Foi preciso chegar a esta idade e a 30 anos de comunicação social, para ter tido essa experiência, que me magoou muito, mas simultaneamente me permitiu ver quem, de facto, me aprecia e defendeu.

A calúnia é uma das formas mais cruéis de injustiça, porque ataca aquilo que é mais precioso numa pessoa: a sua honra e a sua dignidade. Diferente de uma agressão física, que deixa marcas visíveis, a calúnia age de maneira silenciosa e corrosiva, espalhando desconfiança, mágoas e ruturas muitas vezes irreparáveis. Uma palavra distorcida, uma mentira repetida, pode destruir amizades, abalar famílias, manchar reputações construídas ao longo de anos e, até, comprometer a vida profissional e social de alguém.

O mais doloroso é que, depois de espalhada, a calúnia dificilmente pode ser totalmente reparada. Mesmo quando a verdade vem à tona, as dúvidas já foram lançadas, e o olhar das pessoas nunca mais é o mesmo. É como uma mancha que permanece, mesmo após tentativas de limpeza.

A devastação da calúnia não atinge apenas a vítima direta. Ela corrói laços de confiança na comunidade, incentiva a injustiça e alimenta a maldade. Quem calunia fere não só o outro, mas também a si mesmo, pois revela a própria fragilidade de carácter.

Por isso, é fundamental refletir antes de falar e cultivar a responsabilidade nas palavras. A verdade pode ferir, mas liberta.  A calúnia, por sua vez, aprisiona todos num ciclo de dor e desconfiança

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publicado às 12:44

O Íntimo e o Privado das Figuras Públicas I

A condição de figura pública carrega consigo uma dupla dimensão: a visibilidade e a exposição. Políticos, artistas, atletas, influenciadores e outros indivíduos conhecidos da sociedade acabam sendo constantemente observados, analisados e, muitas vezes, julgados. Entretanto, é importante compreender a distinção entre o que é de interesse público e o que pertence ao campo da vida privada.

O íntimo refere-se ao núcleo mais restrito da existência pessoal: sentimentos, relações afetivas, escolhas espirituais, familiares ou de saúde, aspetos que, por sua própria natureza, dizem respeito apenas ao indivíduo e ao seu círculo mais próximo. Já o privado abrange uma esfera um pouco mais ampla, como preferências pessoais, momentos de lazer, rotinas domésticas ou opções de estilo de vida, que não necessariamente se conectam com a função social ou profissional exercida por aquela pessoa.

Embora o fato de alguém ocupar espaço na mídia desperte a curiosidade do público, isso não autoriza a invasão irrestrita de sua vida íntima e privada. A liberdade de imprensa e o direito à informação encontram limites no respeito à dignidade humana, princípio fundamental em sociedades democráticas. O que é de interesse público — como condutas que impactam a coletividade, atos de corrupção, discursos, decisões profissionais ou políticas — não deve se confundir com o interesse do público, que muitas vezes se volta apenas para a curiosidade ou o entretenimento.

Assim, preservar o íntimo e o privado das figuras públicas é um exercício de equilíbrio entre a transparência necessária à vida social e o direito individual de cada pessoa à intimidade. Reconhecer esses limites é também uma forma de reafirmar que, apesar da notoriedade, celebridades e autoridades continuam sendo seres humanos que merecem respeito, dignidade e proteção de sua esfera pessoal.

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publicado às 13:19

A TEGGY

Conheci a Teresa Caeiro há muitos anos. Apesar da sua brilhante carreira política, aquilo que hoje me interessa ressaltar é, obviamente, a mulher, que se encontrava escondida debaixo da armadura da política.

Era, talvez, das pessoas mais carentes de afeto que encontrei ao longo da vida. E, também, das pessoas mais protegidas por esse afeto, de que ela tanto carecia.

Dotada de um grande sentido do humor, sempre que estávamos juntas não era de política que falávamos, mas sim, daquilo de que todos os seres humanos carecem, para se sentirem felizes. E, também, para rir.

Ela achava-me uma mulher forte e eu dizia-lhe que ela ainda só aprendera a reconhecer as suas fragilidades. Faltava ir mais fundo para, verdadeiramente, se encontrar.

Eu sabia que a Teresa podia ser forte, porque houve ocasiões em que essa caraterística veio ao de cima. Assisti a algumas delas. Infelizmente, outros fatores e dependências, arrastavam-na para o lado difícil da vida.

Choro por isso, por saber que, com tantos amigos a protegê-la, ela não tivesse tido a capacidade e a vontade, de sublimar as pedras que a vida, por vezes, põe no nosso caminho para nos testar! Adeus, querida Teresa. E que, finalmente, encontres a paz!

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publicado às 15:36

Educação Sexual nas Escolas: um pilar para a formação integral

Pertenço a uma geração em que a sexualidade era tabu nas famílias e muito mais nas escolas. Assim, se não fosse a mãe que tive, o que saberia era a pouquíssima abordagem da matéria em livros proibidos. Nunca me conformei com esse condicionamento.

Para já, a educação sexual nas escolas, deve ir muito além do ensino sobre anatomia ou prevenção de doenças. Ela é uma ferramenta essencial para promover o conhecimento, o respeito e a autonomia dos estudantes sobre os seus próprios corpos e relacionamentos. Quando tratada de forma responsável e adequada à faixa etária, ajuda a combater tabus, a reduzir a desinformação e a prevenir situações de risco.

O ensino estruturado da sexualidade aborda temas como consentimento, diversidade, igualdade de género, prevenção de infeções sexualmente transmissíveis, menstruação, métodos contracetivos e desenvolvimento afetivo. Essas informações, transmitidas de maneira clara e respeitosa, fortalecem a autoestima e a capacidade de tomar decisões conscientes.

Além disso, a presença da educação sexual nas escolas contribui para diminuir casos de gravidez na adolescência, violência sexual e discriminação. E também cria um ambiente mais seguro, onde os estudantes se sentem à vontade, para esclarecer dúvidas e aprender, sem medo de julgamentos ou ideologias, porque estas matérias estão muito acima disso.

Negar esse acesso é deixar jovens à mercê de informações distorcidas, muitas vezes obtidas de forma insegura na internet, ou em conversas informais. A escola, como espaço de formação dos cidadãos, tem o papel de preparar os seus alunos não apenas para o mercado de trabalho, mas para a vida em sociedade. E a educação sexual é parte fundamental desse processo.

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publicado às 18:11

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